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domingo, 31 de janeiro de 2010

A ajuda de Saramago ao Haiti

Texto publicado em 28.01.2010 no blog "O Caderno de Saramago":

Uma Jangada de Pedra a Caminho do Haiti

As minhas palavras são de agradecimento. A Fundação José Saramago teve uma ideia, louvável por definição, mas que poderia ter entrado na história como uma simples boa intenção, mais uma das muitas com que dizem estar calcetado o caminho para o inferno. Era a ideia editar um livro. Como se vê, nada de original, pelo menos em princípio, livros é o que não falta. A diferença estaria em que o produto da venda deste se destinaria a ajudar as vítimas sobreviventes do sismo do Haiti. Quantificar tal ajuda, por exemplo, na renúncia do autor aos seus direitos e numa redução do lucro normal da editora, teria o grave inconveniente de converter em mero gesto simbólico o que deveria ser, tanto quanto fosse possível, proveitoso e substancial. Foi possível. Graças à imediata e generosa colaboração das editoras Caminho e Alfaguara e das entidades que participam na feitura e difusão de um livro, desde a fábrica de papel à tipografia, desde o distribuidor ao comércio livreiro, os 15 euros que o comprador gastará serão integralmente entregues à Cruz Vermelha para que os faça seguir ao seu destino. Se chegássemos a um milhão de exemplares (o sonho é livre) seriam 15 milhões de euros de ajuda. Para a calamidade que caiu sobre o Haiti 15 milhões de euros não passam de uma gota de água, mas A Jangada de Pedra (foi este o livro escolhido) será também publicada em Espanha e no mundo hispânico da América Latina – quem sabe então o que poderá suceder? A todos os que nos acompanharam na concretização da ideia primeira, tornando-a mais rica e efectiva, a nossa gratidão, o nosso reconhecimento para sempre.
José Saramago

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O guardador de rebanhos

Apenas um "brinde" aos que deleitaram-se, como eu, com "Singularidades de Uma Rapariga Loura", de Manoel de Oliveira.
Trecho de "O Guardador de Rebanhos", de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), lido no filme por Luis Miguel Cintra.
Canto XXXII - Ontem à Tarde

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.

(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)

Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha.

(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
Canto XXXIII - Pobres das Flores

Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O "falar é fácil" de Saramago

Admiro cada vez mais o pensamento e as letras de José Saramago.
Em seu "O Caderno de Saramago", eis um dos últimos textos publicados:


DIZEMOS

"Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais difícil operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar emanharados, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos, e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida."

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

DOCUMENTÁRIO ENCANTADO


Muito bom, de fato encantador, o filme "PALAVRA ENCANTADA", de Helena Solberg, sobre a relação entre poesia e música.

Entre os depoentes, Adriana Calcanhoto, Maria Bethânia (declamando Fernando Pessoa), Arnaldo Antunes, Zé Celso, Tom Zé, Chico Buarque ("Não tenho pretensão de ser chamado de poeta. Não sou poeta"), entre outros. Evidente que, pelo tema, não poderiam estar ausentes Luiz Tatit e José Miguel Wisnick, ambos mestres-cantores da Faculdade de Letras da USP. Luiz Tatit, livre docente com vários trabalhos publicados sobre o tema, dá verdadeira aula, muito interessante por sinal!

Quem abre o documentário é Adriana Calcanhoto, declamando uma canção medieval. Chico relembra a história da trilha para a peça "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, que, por sinal, odiava música. E o filme prossegue. Os pontos fortes são os debates sobre se letra de música pode ou não ser considerada poesia. Outro ponto é a utilização da música popular (Rap, inclusive) como veículo para despertar interesse pela literatura. É o que fazem Lirinha e Ferréz.

Recheado de entrevistas interessantíssimas, não é surpresa que o trabalho tenha ficado excelente. Com tantos entrevistados, imagino a quantidade de material que ficou de fora do corte final. Ótima montagem. Merecido o prêmio de melhor direçao de documentário no Festival do Rio deste ano. O filme é a própria poesia com música! Trata do tema de forma deliciosamente leve, evitando com sucesso um academicismo que condenaria o assunto à chatice!

Para quem não viu, é torcer para estar na semana extra ou para estrear logo no circuito comercial!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Machado

Quase no fim a exposição "Mas este capítulo não é sério", sobre Machado de Assis, no Museu da Língua Portuguesa. Mas ainda dá tempo. Em cartaz até o dia 26/10.

'Bora lá!