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terça-feira, 14 de julho de 2009

ENGARRAFAVA BRUMAS E COLECIONAVA ARCO-ÍRIS

Lírico. E o lirismo vai muito além do título em "O HOMEM QUE ENGARRAFAVA NUVENS", novo documentário de Lírio Ferreira, sobre HUMBERTO TEIXEIRA, o "Doutor do Baião". Sinestesia completa, seja na música que invade a tela de colorido vivíssimo, seja na poesia construída com edição e montagem perfeitas. A fotografia, por sinal, é um desbunde, obra do cracaço Walter Carvalho.
Após a bela abertura em "cordel", já dando o mote nordestino, o filme parte de alguns "pontos centrais" para nos contar um pouco mais sobre quem foi o "Doutor do Baião". Apresenta-nos o sertão cearense, a cidade de Iguatu, local de origem de Humberto Teixeira. Os costumes locais, sua gente, os personagens típicos da região. O vaqueiro da caatinga e sua veste de couro. A sanfona. O "consertador" de sanfona. O Cordel. A poesia. A música. O baião, que Humberto Teixeira levou para o Rio de Janeiro, urbanizou e, em parceria com Luiz Gonzaga, tornou popular no Brasil todo, conhecido e cultuado no exterior.
Sua filha, a atriz Denise Dumont, é importante figura condutora do documentário, do qual é também produtora. Logo no início, declarando não conhecer com exatidão a devida importância da obra de seu pai e com o objetivo de desvendar para si mesma quem foi o homem público Humberto Teixeira, é ela quem nos guia nessa jornada de descoberta. É ela, aliás, quem entrevista grande parte das personalidades – e são muitas – que desfilam pela tela.
Entre tantos nomes, ora a ilustrar a cultura nordestina, ora a falar diretamente de Teixeira, os saudosos Patativa do Assaré e Sivuca, o maestro Wagner Tiso, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Chico Buarque, Zeca Pagodinho, Lenine, Otto, Gal, Lirinha e seu Cordel do Fogo Encantado, os cearenses Fagner e Belchior, os roqueiros influenciados pelo baião Raul Seixas e Os Mutantes, os internacionais Bebel Gilberto, Forró in the Dark – grupo que toca baião com sucesso em Nova Iorque – e David Byrne, são alguns dos nomes que se revezam na tela, entre uma música e outra, entre uma passagem e outra da vida do doutor pioneiro, como deputado federal e como intelectual, pela defesa dos direitos autorais no Brasil. David Byrne, responsável inclusive pela redescoberta de Tom Zé na década de 90, revela-se grande apaixonado pela música brasileira. É dele a interpretação de uma arrepiante versão em inglês para "Asa Branca"
Vale destacar que Denise não isenta o pai de críticas, o que fica evidente quando toma o forte depoimento de sua mãe, Margarida Dumont, ex-esposa de Teixeira. Pai machista, preconceituoso, que não aceitava a filha como atriz, profissão não condizente com a figura de "moça de família". Marido que interrompe a carreira da própria esposa, também atriz.
São muitas as informações, em parte narradas pela voz do próprio Humberto Teixeira. Tem-se a impressão, em alguns pontos, de se perder o "fio da meada". As peças soltas, porém, vão se encaixando, se assentando no decorrer da narrativa.
A frieza de um comentário escrito como o que se pretende aqui com certeza não traduz a imensa beleza do filme. Como na letra de um baião, a história de Humberto Teixeira é contada com alegria, apesar da tristeza inerente. Lírico. Lirismo que, nesse caso, vem também de Lírio Ferreira. Se o trabalho anterior do diretor – "Cartola" – era "música para os olhos", "O Homem que Engarrafava Nuvens" é poesia para a alma e para o cantinho do cérebro que hospeda a emoção.

PS: tenho dúvidas da imparcialidade desses comentários. Difícil conter um certo exagero. O filme casa de forma bastante coesa grandes paixões minhas: a música (em especial a popular), fotografia (como já dito, do mestre Walter Carvalho), o povo e seus costumes e, evidentemente, o cinema-arte. É ver pra crer!
PPS: o documentário deve estrear no circuito comercial em outubro ou novembro deste ano.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Mais um festival!

São Paulo é mesmo uma cidade de deleite para os cinéfilos. Mal termina um festival e já começa outro. Agora é a vez do Festival de Cinema Latino-Americano , em sua 4ª edição.
Muita coisa interessante poderá ser vista de hoje até domingo em algumas das salas de São Paulo (e uma em São Bernardo do Campo).
O peruano “O Leite da Amargura” (“La teta asustada”), ganhador do Urso de Ouro de Berlim deste ano, abre o festival, que traz ainda algumas “mostras” paralelas: uma seleção em homenagem a Nelson Pereira dos Santos (“Rio 40 Graus”, “Memórias do Cárcere”, “Vidas Secas”, “Como Era Gostoso o Meu Francês”, “El Justicero” e “O Amuleto de Ogum”), uma seleção de filmes contemporâneos, uma programação voltada à produção da DOCTV Iberoamericana, um painel sobre a retomada do cinema latino americano nos anos 90 (“Mundo Grua” de Trapero, “Baile Perfumado” de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil” de Carla Camuratti, “Os Matadores” de Beto Brant, entre outros), uma amostragem do trabalho do cineasta Alex Viany e uma série de documentários musicais.
Vale ainda destacar o mexicano “Rude e Brega”, com Diego Luna (“E Sua Mãe Também”, Milk”) e Gael García Bernal (“Ensaio Sobre a Cegueira”, “Diários de Motocicleta”) e produzido por Alejandro Gonzáles Iñarritú (“Amores Brutos”, “Babel”), Alfonso Cuarón (“E Sua Mãe Também”) e Guillermo Del Toro (“O Labirinto do Fauno”). Pra quem não viu no “É Tudo Verdade”, “Moscou”, de Eduardo Coutinho, também será reapresentado. Dentre os documentários musicais, “Waldick, Sempre no Meu Coração”, estreia na direção de Patrícia Pilar, “O Homem Que Engarrafava Nuvens”, documentário sobre Humberto Teixeira cuja ausência na Mostra Internacional de SP lamentei por aqui, e os maravilhosos “Loki” e “O Mistério do Samba”.
Vale a pena caçar outras pérolas na programação completa.
E uma informação importantíssima: É TUDO GRATUITO. Retirada de ingressos uma hora antes de cada exibição. Vemos-nos por aí!